John Mundell: O que vi na Cidade do Panamá

Estadunidense conta a sua experiência no país

John Mundell
John Mundell

O relato é do John Mundell, um americano que já viveu em diversos países da América Latina. No texto, ele fala da sua experiência no Panamá, país que lhe encantou com a simplicidade do povo, mesmo com as adversidades daquele país:

A Cidade do Panamá é um lugar espetacularmente estranho.  Do aeroporto em uma cidadezinha próxima, dirigindo pelo pantanal e a floresta tropical, a cidade começa a aparecer em cima da copa, brincando de bichinho com as revoadas de araras escarlates no meio do verde.  Mas, ao atravessar uma ponte, aí está: arranha-céu após arranha-céu.  Esses coça-costas-de-Deus se aconchegam na beira do mar enquanto as favelas enchem os espaços.

Os velhos ônibus escolares americanos se converteram em um sistema de transporte público de motor envenenado com murais gigantescos com verdes, rosas e azuis pintados nos lados com as caras dos filhos do motorista, Jesus e frases pedindo a proteção do supracitado.

Pensaria-se que andar dentro de um desses roubaria a essência externa; mas o interior é ainda mais colorido.  Três pessoas a cada banco, outros no corredor e outros quase derramando nas ruas da cidade, os panamenhos―e o ocasional estrangeiro―se comprimem em qualquer espaço que resta enquanto a fumaça do motor enche a cabina e escapa pelas janelas que só entreabrem, eu lembrando do quão difícil era abrir uma dessas quando eu estava na primeira série.

Corpos suados se grudam, deslizando no assento de couro falso numa hilaridade nojenta.  Todos tínhamos um lugar para chegar, embora estivéssemos todos juntos naquele momento, batendo papo e dando risada, enquanto nossa carne escorregadia derrapava de uma na outra nas viradas e nos buracos, segurando os torsos daqueles que estavam em pé para que não se caíssem em cima de nós.  As senhoras abanavam seus pescoços enquanto os homens limpavam a testa.  Os menininhos cutucavam suas irmãs e as mães amamentavam seus nenéns.  Foi lindo, e lá estava eu, perspirando junto a todos eles.

“A Cidade dos Arranha-céus”, como se apelida, é a capital mais chique da América Central com vários shoppings, alguns melhores que os dos Estados Unidos, culinárias gourmet da Ásia, da Europa e do Caribe, e carros alemães vagando pelas ruas de noite na procura de confusão.  A cidade parece muito a Miami, mas eu apostaria que, ironicamente, se fale mais inglês por lá.

Porém, ao chegar do meu tempo estendido na cordilheira dos Andes com clima cuja temperatura máxima era 15 graus, o Panamá me chamusca.  As temperaturas frequentemente alcançam 38 graus com 95%; só de ficar sentado fora, começo a suar e dou graças a Deus―três vezes por dia, por sinal―que minhas acomodações sem ar condicionado também não têm água quente.  Mas é algo ao que eu poderia me acostumar… bom, menti.  E quando chove (toda tarde), não refresca.  As gotas misturam com seu suor, tornando tudo isso mais insuportável ainda.

Caminhar pelo bairro do Panamá Viejo (Panamá Velho), ou Casco Viejo (Capacete Velho), ou San Felipe se você preferir, é uma imagem ilustre, ou sem brilho para aqueles que não sabem olhar.  Já que estou hospedado aqui, consigo confirmar o estereótipo da arquitetura do estilo tropical de prédios de dois andares com varandas de madeira cor de creme e venezianas com ripas, das quais a pintura está sulcando, ventiladores de teto pretos rodopiando e salsa e resultados de jogos de futebol salpicando na rua e nas diversas ruinas de igrejas da época de quando piratas ingleses saquearam a cidade.

É um bairro bastante pobre, San Felipe, com os habitantes mais escuros da cidade como seus residentes mais típicos.  Os descendentes de escravos africanos, então depois imigrantes jamaicanos e barbadianos que vieram trabalhar no canal basicamente como escravos, as crianças negras correm sem camisa e descalças nas ruelas de pedra arredondada, empurrando-se numa brincadeira de pega-pega,  enquanto gritam o xingamento mais recentemente aprendido.

Os paroquianos compram seus bilhetes da loteria depois dos serviços e homens vestidos só de bermuda jogam futebol no parque, outros assistindo atrás da cerca de arame, enquanto mulheres assam costeletas de frango na esquina numa churrasqueira enferrujada, as idosas balançando seus quadris magrinhos em saias retas, cachos curtos guardados embaixo de um lenço, à merengue tocando no rádio.

Os bêbados se chateiam, rindo enquanto um cutuca ao outro entre as costelas, e ainda outros homens bebericam suas longnecks de Balboa e apostam num jogo discreto de dominó, com o tabuleiro de madeira apoiado nos joelhos deles.  De vez em quando, um carro passa devagarzinho, o motorista batendo a buzina e acenando ao seu vizinho, para depois gritar alguma coisa em espanhol cortado.

O Panamá é encantador. Mesmo com sua pobreza e seu calor, talvez essas coisas são as que me encantaram.  O povo parece feliz, trabalham duro e aproveitam dos dias de folga e, embora falte muito para livrar a nação de seus racismo e classimo espalhafatosos, cada panamenho vive o cotidiano, gozando de cada momento enquanto o tem.

Ninguém me desrespeitou de forma alguma; eu consegui acenar aos policiais na rua, conversar com o cachaceiro ocasional, jogar futebol com os meninos e cumprimentar a senhora de três pernas, seu bastão guiando o caminho à missa das 18hs.  Isto é a América Latina.


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Igor Leonardo

Jornalista e viajante.

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